por sentir vontade

“A melhor parte dos meus relacionamentos aconteceu na minha cabeça.”

O que seria uma frase toda meio inconsequente acabou por gerar bastante reflexão na minha cabecinha.E o que parecia tragédia aos poucos foi deixando de ser.

É verdade: parece que eu fico junto mais por causa do que eu sonho, do que eu imagino, do que por causa do que eu tenho de sólido. Isso pode gerar uma desilusão muito grande quando o sonhar some e eu descubro que o que havia lá de fato era tão mais escasso do que parecia. Às vezes chega a ser arrasador.

Mas aí eu me dei conta de uma coisa, que eu sempre pensei mas não tava conseguindo associar: a opção é ficar junto por causa do que se tem ao invés do que se sonha.

É o que acontece com aqueles casais casados há muito e que nunca vão separar. Às vezes eles já não sonham mais nada em relação um ao outro- não há mais alucinações de dias e noites inteiros andando sabe-se-lá por onde e fazendo sabe-se-lá o que, fantasias sexuais, imagens de um futuro em que um será a força do outro, ou mesmo- pra entrar num exemplo bem mais ingênuo- aquela vontadinha de poder chegar em casa cansada de noite e só se atirar no colo do fulano pra conversar, assistir uma bobagem qualquer e encomendar uma pizza. Isso tudo está morto e enterrado, mas há os FATOS. Existem as fotos da lua-de-mel, os bilhetes de amor engavetados, os filhos, a conta conjunta no banco, os livros na estante que já estão misturados e não tem como saber qual é de quem. E isso pode se tornar uma prisão.

Não é bom apenas sonhar e nunca viver o que se sonha, mas viver sem ter a chance de sonhar é um pesadelo. Engessa a vida. Cinco dias em Paris ao preço de trezentos e sessenta dias engolindo a miséria e a frustração não valem a pena de forma alguma (o que não significa que não seja bom passar cinco dias em Paris). É uma questão de perdas e ganhos e de tentardeixar o saldo positivo. No amor, nas amizades, na família, no trabalho, eu quero ter sempre mais sonhos do que posses. Mesmo que o senso comum aponte para a ideia de que quanto mais se tem menos se deseja, aproveito que já sou esquisitinha e metida a alternativa mesmo e vou na contramão de vez.

when there is nothing left to burn you have to set yourself on fire

Retorno.

Retorno à feminilidade ao desejo aos sorrisinhos de lado aos olhares BEM direcionados às mãos propositadamente tímidas.

Retorno às aulas aos ritmos às pulsações aos calores aos bafos de ar fresco ao despertador apenas quando necessário sem emergências.

Retorno às cores às festas ao ritmo aos sorrisos abertos.

Retorno aos mil e um afazeres mas todos bons retorno às alucinações.

Retorno ao gosto pela vida.

Retorno ao gosto pela escrita.

Retorno, afinal.

Retorno aos recmeços.

if i was young, i’d flee this town

Eu quero morrer cercada de amigos, de amigos de verdade que se importam comigo e que estariam ao meu lado a qualquer hora e jamais me deixariam.

Mas quando eu tenho 19 anos e é sábado de noite e ninguém atende, eu chego perto de perder todas as esperanças.

and i’ll look at you and say it’s the happiest i’ve ever been, i’ll say “i no longer feel i have to be james dean”

Uma das minhas diversões é pensar na Luiza-de-Sete-Anos. Naquela menininha de cabelo curto e vestidos floridos, sorridente, cantante, sonhadora e vaidosa, abraçada numa foca de pelúcia (a Fon-Fom, que ficou na casa da mãe). Eu gosto de pensar seriamente no que a Luiza-de-Sete-Anos acharia da vida da Luiza-de-Dezenove-Anos. Pode não parecer, mas é na verdade um código de honra- fazer jus àquela criança recém-saída do mundo horripilante da doença e que tinha tantas expectativas acerca de ser capaz de, finalmente, começar a viver.

Eu não posso esquecer que viver custou muito pra mim, que foi algo que eu sonhei em fazer por muito tempo (diferente da maioria das pessoas, que simplesmente cai no mundo e sai vivendo, eu tive muito tempo de interlúdio entre nascer e viver). E eu não posso, não quero, jogar isso fora. E a Luiza-de-Sete-Anos sonhava muitas coisas, mas ela nunca, por mais que tivesse imaginação fértil, conseguiria sonhar com o que a Luiza-de-Dezenove-Anos vê todos os dias. Os livros. As pessoas. Os lugares. As sensações. As lembranças.

Por mais que ela sonhasse, ela nunca esperaria encontrar coisas tão belas.

E agora, a Luiza-de-Dezenove-Anos tem uma coisa que ela não tinha desde os sete anos.

Tem sonhos.

fecha meu livro se por agora

Às vezes me dá vontade de decidir “eu nunca mais vou dizer eu te amo”.

Porque quando a frase é verdadeira, as palavras nunca bastam.

don’t we all don’t we all

Todo esse tempo, acho que eu já estava sendo eu mesma, só que sozinha.

still i wish that you were mine

Não se apressa essas coisas. Não se pode simplesmente dizer pra uma pessoa que ela pode contar com você, sempre, nos piores dias e horários, e que você tem certeza, certeza absoluta, de que a amará pra sempre. Não se pode dizer isso porque essas palavras serão vãs, ela só acreditará quando sentir, e sentir de verdade leva tempo. Não se apressa essas coisas.

Mas confesso, cara, que às vezes dá uma puta vontade.

haja estante

Entro na psicóloga com o guarda-chuva na mão. “Se deixar aqui fora eu vou esquecer,” explico. É porque eu estou desacompanhada, já faz uns meses que nem mãe nem pai nem tio nem vó me largam na porta, e pra isso eu preciso cuidar do que é meu, inclusive do guarda-chuva lindo e novo. Sento no sofá no lugar que eu uma vez defini pra psicóloga como “o mais perto da tua poltrona e o mais longe da caixa de lenços de papel” (embora praticamente não haja consulta em que eu não use e abuse dos pobres lencinhos).

Falo do meu avô, do asilo, da família, das enfermeiras, das senhoras internadas e suas alucinações, dos xistes, da frustração, da infantilização. É nessa parte que, confesso, eu faço uma breve utilização da tão temida caixa de lenços de papel. Mas digo pra ela que ainda tenho outras coisas a tratar, e seguimos para o assunto seguinte: as estantes.

Minha mãe me ofereceu umas estantes baratas, simples e que eu acho até bonitinhas (de metal preto) que ela não vai usar mais, e meus livros estavam se empilhando de qualquer jeito, pai e filha igualmente ratos-de-biblioteca morando sozinhos juntos dá nisso. E o pai não aceita as estantes porque são da mãe na casa dele, e eu esvaziei umas quatro prateleiras de livros dele e as preenchi com os meus e ponto final, se não gostar que me compre uma estante nova, porque eu também sou da casa.

E aí é que falo das coisas bonitas e boas, dos amigos, da kombi do Arthur nos dias de chuva, das festas e cafés dessa minha ocasional vie bohéme, do trabalho de transcrição, dos projetos de arte pra Hotel Santa Clara, da aula de LIBRAS. Aí conto o gran finale, o convite pra trabalhar com o Jornalismo B, e minha querida psicóloga, que vive me ouvindo falar dos caras, só falta pular da poltrona de alegria. Esse entusiasmo me algera muito, e explico que meus pais não conseguem compartilhá-lo porque não entendem. “Mas explica! Eu também não sou jornalista, afinal.” E é nessa hora que eu sorrio, sorriso alegre e honesto, e digo que na verdade quanto menos eles souberem melhor, porque eles nunca aprovariam toda essa linha esquerdista, eles já me estranham com o pouco que sabem. “Não é a âncora da Fox News, né?” Quem fala é ela mesma, sábia. E eu digo que sim, e digo que sim em tom de orgulho, em tom de altivez, é o que eu amo e quero!

“Haja estante,” ela brinca, e ri. E é isso.

Nessa vida linda e desafiadora, meu deus, haja estante.

and if there was a sequel

É muito comum que isso aconteça quando eu gosto muito de alguém… quando estou apaixonada não, porque aí a relação é diferente, mas quando eu gosto muito, muito, muito de alguém, e não de uma maneira romântica. Vem a agonia do… poxa, como eu amo. Como é importante essa pessoa, como eu gosto, será que ela se dá conta, será que ela se sente amada?

Mas ela precisa, porra, porque todo mundo precisa, e porque é o que eu sinto, e diabos, o que eu sinto precisa chegar. Precisa. De alguma forma, eu preciso fazer o outro compreender- e é difícil, porque às vezes nem eu consigo- mas essa pessoa precisa se dar conta do quanto é especial pra mim, especial de verdade, de algum lugar muito fundo. E sou eu que tenho que dar um jeito disso acontecer.

Porque algo tão grande e belo não pode ficar escondido.

só do que me interessa

E foi ontem que eu percebi que nunca, nunca antes, eu tinha usado a palavra “discriminada” pra me referir a mim mesma. Estranhada. Malcompreendida. Coisas assim. Mas discriminada? Discriminada vai tão mais fundo, dá um medo até o tutano dos ossos. Discriminada é tão forte e tão final, é tão irremediável. E do nada quase que eu choro, do pavor que aquela confissão me deu.

“Eu tenho medo de ser discriminada!”

Mas eu estava bem-cuidada protegida daquela chuva boa e muito amada, e sabia que nunca mais iam me proibir de soprar bolhas no copo de suco de uva. E se não desse, eu tentaria de novo e o rosto diante do meu sempre estaria em algum lugar perto o suficiente pra eu poder baixar a cabeça só um pouquinho, se precisasse.

Quando eu olhar pro lado, eu quero estar cercado.